Artigos - A Erva do Diabo - Um Homem do Conhecimento

Um homem de conhecimento …
Trecho de livro “A Erva do Diabo” – (Don Juan / Carlos Castaneda)
Elaborado por:  CARLOS SALVADOR
Aluno do Curso de Formação em Programação Neurolingüística
Nível Master Practitioner
8 de abril de 1962
          – Um homem de conhecimento – disse Don Juan – é aquele que seguiu honestamente as dificuldades da aprendizagem; um homem que sem se precipitar ou hesitar, foi tão longe quanto pôde para desvendar os  segredos da sabedoria.
          – O que é preciso para se tornar um homem de conhecimento?
          – O homem tem que desafiar e vencer seus quatro inimigos naturais. Um homem pode chamar-se um  homem de conhecimento somente se for capaz de vencer seus quatro inimigos.
          – Mas há algum requisito especial que o homem tenha de atender antes de lutar contra esses inimigos?
          – Não. Qualquer pessoa pode tornar-se um homem de conhecimento; muitos poucos o conseguem realmente, mas isto é natural. Os inimigos que um indivíduo encontra no caminho do saber para tornar-se   um homem de conhecimento são realmente formidáveis; a maioria dos homens sucumbe a eles…
15 de abril de 1962
          Quando eu estava me preparando para partir, tornei a lhe perguntar acerca dos inimigos do homem de conhecimento. Argumentei que ia passar algum tempo sem voltar, e que seria uma boa idéia escrever as coisas que ele tivesse a dizer e pensar a respeito enquanto estivesse fora. Hesitou um pouco, mas depois começou a falar.
          – Quando um homem começa a aprender, ele nunca sabe muito claramente quais são seus objetivos. Seu propósito é falho; sua intenção, vaga. Espera recompensas que nunca se materializarão, pois não conhece nada das dificuldades da aprendizagem. Devagar ele começa a aprender… a princípio, pouco a pouco, e depois em porções grandes. E logo seus pensamentos entram em choque. O que aprende nunca é o que  ele imaginava, de modo que começa a ter medo. Aprender nunca é o que se espera. Cada passo da aprendizagem é uma nova tarefa, e o medo que o homem sente começa a crescer impiedosamente, sem         ceder. Seu propósito torna-se uma batalha. “E assim ele depara com o primeiro de seus inimigos naturais: o medo! Um inimigo terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Permanece oculto em todas as voltas do  caminho, rondando, à espreita. E se o homem, apavorado com sua presença, foge, seu inimigo terá posto  um fim à sua busca.”
          – O que acontece com o homem se ele fugir com medo?
          – Nada acontece a não ser que ele nunca aprenderá. Nunca se tornará um homem de conhecimento.
          Talvez se torne um tirano, ou um pobre homem apavorado e inofensivo; de qualquer forma, será um  homem vencido. Seu primeiro inimigo terá posto fim a seus desejos.
          – E o que pode ele fazer para vencer o medo?
          – A resposta é muito simples. Não deve fugir. Deve desafiar o medo, e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte na aprendizagem, e o seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, plenamente, e no entanto não deve  parar. É esta a regra! E o momento chegará em que seu primeiro inimigo recua. O homem começa a sentir  seguro de si. Seu propósito torna-se mais forte. Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural.
          – Isso acontece de uma vez, Don Juan, ou aos poucos?
          – Acontece aos poucos, e no entanto o medo é vencido de repente e depressa.
          – Mas o homem não terá medo outra vez, se lhe acontecer alguma coisa nova?
          – Não. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu clareza… uma clareza de espírito que apaga o medo. Então, o homem já conhece seus na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada lhe oculta. “E assim ele encontra seu segundo inimigo: a clareza!
          Essa clareza de espírito, que é tão difícil de obter, elimina o medo, mas também cega. Obriga o homem a nunca duvidar de si. Dá-lhe a segurança de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele vê tudo claramente. E ele é corajoso, porque é claro; e não para diante de nada, porque é claro. Mas tudo isso é um engano; é como uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz de conta, terá sucumbido ao seu segundo inimigo e tateará com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser até ser incapaz de          aprender qualquer coisa mais.”
          – O que acontece com um homem que é derrotado assim, Don Juan? Ele morre por isso?
          – Não, não morre. Seu inimigo acaba de impedi-lo de se tornar um homem de conhecimento; em vez disso, o homem pode tornar-se um guerreiro valente, ou um palhaço. No entanto, a clareza, pela qual ele  pagou tão caro, nunca mais se transformará de novo em trevas ou medo. Será claro enquanto viver, mas  não aprenderá nem desejará mais nada.
          – Mas o que tem de fazer para não ser vencido?
          – Tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e usá-la só para ver, e esperar com pensar, acima de tudo, que sua clareza é quase um erro. E virá o momento em que ele compreenderá que sua clareza era só um ponto diante de sua          vista. E assim ele terá vencido seu segundo inimigo, e estará numa posição em que nada mais poderá  prejudicá-lo. Isso não será um engano. Não será um ponto diante de sua vista. Será o verdadeiro poder. “Ele saberá a essa altura que o poder que vem buscando há tanto tempo é seu, por fim. Pode fazer o que  quiser com ele. Vê tudo o que está em volta. Mas também encontra seu terceiro inimigo: o poder! O poder é o mais forte de todos os inimigos. E, naturalmente, a coisa mais fácil é ceder; afinal de contas, o homem é realmente invencível. Ele comanda; começa correndo riscos calculados e termina estabelecendo          regras, porque é um senhor. Um homem nesse estágio quase nem nota que seu terceiro inimigo se aproxima. E de repente, sem saber, certamente terá perdido a batalha. Seu inimigo o terá transformado em  um homem cruel e caprichoso.”
          – E ele perderá o poder?
          – Não, ele nunca perderá sua clareza e seu poder.
          – Então, o que o distingue de um homem de conhecimento?
          – Um homem que é derrotado pelo poder morre sem realmente saber manejá-lo. O poder é apenas uma  carga em seu destino. Um homem desses não tem domínio sobre si, e não sabe quando ou como usar o poder.
          – A derrota por algum desses inimigos é uma derrota final?
          – Claro que é final. Uma vez que esses inimigos dominem o homem, não há nada que ele possa fazer.
          – Será possível, por exemplo, que o homem derrotado pelo poder veja seu erro e se emende.
          – Não. Uma vez que o homem cede, está liquidado.
          – Mas se ele estiver temporariamente cego pelo poder, e depois o recusar?
          – Isso significa que a batalha continua. Isso significa que ele ainda está tentando ser um homem de conhecimento. O indivíduo é derrotado quando não tenta mais e se abandona.
          – Mas então Don Juan, é possível a um homem entregar-se ao medo durante anos, mas no fim vencê-lo?
          – Não, isso não é verdade. Se ele ceder ao medo, nunca o vencerá, porque se desviará do conhecimento e nunca mais tentará. Mas se procurar aprender durante anos no meio de seu medo, acabará dominando-o, porque nunca se entregou realmente a ele.
          – E como o homem pode vencer seu terceiro inimigo, Don Juan?
          – Também tem de desafiá-lo propositadamente. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido na verdade nunca é seu. Deve controlar-se em todas as ocasiões, tratando com cuidado e  lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem controle, são piores do que  os erros, ele chegará a um ponto em que está tudo controlado. Então, saberá quando e como usar seu  poder. E assim terá derrotado seu terceiro inimigo. “O homem estará, então, no fim de sua jornada do  saber, e quase sem perceber, encontrará seu último inimigo: a velhice! Este inimigo é o mais cruel de          todos, o único que ele não conseguirá derrotar completamente, mas apenas afastar. É o momento em que o homem não tem mais receios, não tem mais impaciências de clareza de espírito… um momento em que  todo seu poder está controlado, mas também um momento em que ele sente um desejo irresistível de descansar. Se ele ceder completamente a seu desejo de se deitar e esquecer, se ele se afundar na fadiga, terá perdido a última batalha, e seu inimigo o reduzirá a uma criatura velha e débil. Seu desejo de se retirar e vive seu destino completamente, então poderá ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra seu último inimigo invencível. Esse momento de clareza, de  poder e conhecimento é o suficiente.”


VOLTAR